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NOVA IORQUE, 23 DE SETEMBRO DE 2003
INTERVENÇÃO DE SUA EXCELÊNCIA O PRIMEIRO MINISTRO DE PORTUGAL, Dr. JOSÉ MANUEL DURÃO BARROSO, NA 58ª SESSÃO DA ASSEMBLEIA-GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS

Senhor Presidente,

Senhor Secretário-Geral,

Distintos delegados,

Em Setembro de cada ano os Estados Membros das Nações Unidas redescobrem politicamente a Organização de que são accionistas e beneficiários.

Esta prática instituída de “business as usual” não deveria marcar a corrente sessão da Assembleia-Geral. O Secretário-Geral sugeriu aos Chefes de Estado e de Governo que viessem a Nova Iorque dar o seu contributo para o fortalecimento das Nações Unidas. Portugal, enquanto membro empenhado desta Organização, participa neste debate com um objectivo claro: reconhecer, como faz Kofi Annan, que as Nações Unidas são “um instrumento indispensável”; e sustentar que deveremos reexaminar as nossas práticas e instrumentos de acção. O imobilismo não é uma opção que esta Organização deva contemplar.

Senhor Presidente,

Repensar as Nações Unidas significa, antes de mais, reafirmar e repensar a sua própria Carta. Manter a paz e a segurança internacionais continuará a ser o nosso objectivo supremo. Mas também integram a nossa visão das Nações Unidas uma reafirmação da nossa fé nos direitos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade entre homens e mulheres, e na igualdade entre as nações. E ainda a determinação de promovermos em conjunto o progresso social e melhores condições de vida para os nossos povos.

Estes objectivos não deveriam ser esquecidos quando a Organização enfrenta, de tempos a tempos, crises de confiança. O Secretário-Geral está certo quando nos encoraja a perseverar. Mas uma atitude mental positiva não basta. É também essencial não exigir da Organização mais do que aquilo que ela pode realmente dar em cada momento. De contrário, grandes expectativas conduzirão a grandes desilusões.

Realismo e pragmatismo são necessários, sem nunca perdermos de vista os objectivos ambiciosos que esta Organização se propõe servir. É tempo de começarmos a olhar para as Nações Unidas como um reflexo daquilo que somos colectivamente, e não como um bode expiatório conveniente para disfarçar, por vezes, a incapacidade que os Estados membros ainda revelam quando deveriam – e não conseguem - agir em conjunto.

Estamos também “condenados” a compreender, mais cedo ou mais tarde, que enfrentamos ameaças comuns requerendo respostas comuns. À cabeça dessas ameaças encontra-se o terrorismo. De facto, um novo tipo de terrorismo, o terrorismo de destruição maciça que configura um crime contra a humanidade. O terrorismo que mata cega e indiscriminadamente em Nova Iorque, em Bali, em Casablanca ou em Nairobi, em nome de “não valores” apresentados como “valores” nos planos ideológico e religioso.

O terrorismo que não poupa as próprias Nações Unidas, como ficou tragicamente demonstrado em Bagdad. O crime que vitimou Sérgio Vieira de Mello e os seus colaboradores foi um atentado contra os todos os valores que as Nações Unidas representam. Foi um atentado contra todos nós. Se ainda havia dúvidas ou ilusões quando alguns pensavam que o terrorismo visava essencialmente alguns estados, elas desapareceram completamente em Bagdad.

Não foi o povo iraquiano que matou Sérgio Vieira de Mello. Foram os terroristas os responsáveis por esse crime. Não é o povo iraquiano que se opõe à presença das Nações Unidas no seu país. São alguns terroristas. E as Nações Unidas não devem ceder ao terrorismo.

Portugal entende que deverá caber às Nações Unidas um papel central na articulação de uma estratégia global de combate ao terrorismo. Em larga medida, porque a manutenção da paz e da segurança internacionais depende do desfecho desse combate. Um combate que temos de empreender sem perder a nossa alma, isto é, os valores em que assenta esta organização. E que, por isso mesmo, implica mais segurança, mas também mais democracia, mais diálogo entre civilizações e culturas, mais desenvolvimento, mais e melhor medidas de protecção do ambiente, e uma redução drástica da pobreza.

É também vital que este combate se faça em nome e no respeito pela nossa lei – o Direito Internacional. O conceito de “estado de direito” (“rule of law”) deve ter uma verdadeira ressonância global. Razão pela qual defendemos o aperfeiçoamento do direito vigente, nomeadamente através da negociação de uma Convenção Global sobre o Terrorismo Internacional. Mas deveremos também ter presente que o Direito Internacional será irrelevante sem a garantia de imposição, se necessário pela força, das suas normas.

Senhor Presidente,

Novos desafios, novas ameaças, requerem respostas inovadoras das Nações Unidas.

Parece-nos por demais evidente que a composição e o processo de decisão do Conselho de Segurança se encontram obsoletos. Mas algo terá também de mudar nesta própria Assembleia, que se entrega a cada ano a um exercício de re-aprovação automática de centenas de resoluções, em vez de aprovar aquelas que sejam estritamente necessárias. Quanto ao Conselho Económico e Social, o máximo que se poderá dizer é que não é perceptível o impacto externo da sua acção, enquanto o Conselho de Tutela não passa de uma relíquia privada de qualquer objectivo relevante.

No seu relatório sobre a implementação da Declaração do Milénio, o Secretário-Geral foca com particular acutilância este ponto. As propostas por ele lançadas devem guiar a nossa reflexão e acção conjuntas. Mas há um aspecto de particular preocupação relativamente ao qual podemos e devemos agir sem demora.

Refiro-me à necessidade de estabelecimento de uma verdadeira cultura preventiva da ONU em matéria de conflitos armados. Neste contexto, concordamos com a relevância que o Secretário-Geral atribui à diplomacia preventiva, a medidas de desarmamento e não proliferação, ao “peace-building”, ao respeito pelos direitos humanos, à boa governação e à agenda de desenvolvimento.

Em última análise, teremos de ter bem presente que a utilidade das Nações Unidas será sempre julgada em função da sua capacidade para evitar e gerir conflitos.

Na execução dessa missão o papel fundamental cabe ao Conselho de Segurança, que ao longo dos anos tem autorizado diversas operações de manutenção de paz. O balanço global é positivo. Portugal tem dado um contributo significativo para estas operações e mantém a disponibilidade para, no limite das suas possibilidades, continuar a colaborar com as Nações Unidas.

Mas nem sempre as condições no terreno são claras, nem sempre temos a possibilidade de separar o que é e o que não é conflito, e o que justificaria ou não uma intervenção ordenada pelo Conselho de Segurança. E há essa imensa zona cinzenta e perigosa das situações de pré-conflito e pós-conflito.

Temos também de criar os instrumentos para lidar com países e situações que não precisam de apoio em termos de segurança, designadamente através de uma operação de paz. A intervenção das Nações Unidas na fase aguda de um conflito, seguida de uma saída precoce, pode redundar num fracasso, que, no fundo, poderá também levar ao desperdício do investimento efectuado pela comunidade internacional até essa altura.

Esta avaliação aconselha a que, por exemplo, as Nações Unidas continuem a acompanhar de perto a situação em Timor-Leste. Trata-se de um país com instituições democráticas ainda em fase de consolidação e sem tradição de auto-governo, que tem feito progressos invulgarmente rápidos em vários domínios, mas que ainda necessita da nossa ajuda e atenção. Se, de facto, desejamos que Timor-Leste se revele uma verdadeira “história de sucesso” para as Nações Unidas, é importante dar tempo ao povo timorense para consolidar as suas instituições.

Noutros casos, todavia, em que ainda não se justifica o desencadear de uma operação de paz, a fragilidade das instituições do Estado, as enormes carências de serviços básicos e um desenvolvimento que não descola, tornam aconselhável uma presença actuante e forte das Nações Unidas, coordenada no terreno pelo Secretário-Geral.

Ocorre-me recordar neste momento a tão frequentemente esquecida Guiné-Bissau que requer novamente a nossa atenção. Aqui está um país que, não tendo mergulhado numa espiral de destruição idêntica àquela que experimentaram outros Estados da região, continua a lutar para se recompor. Há que ajudá-lo, não ignorá-lo. Nele vive um povo que pode, deve e merece ser ajudado pela comunidade internacional. Por isso mesmo, apoiamos os esforços em prol da democracia e do desenvolvimento até à data feitos pelo Secretário-Geral e o original contributo dado pelo Conselho Económico e Social.

Senhor Presidente,

Nas actuais condições o Conselho de Segurança não tem em atenção todas as vertentes envolvidas na prevenção: segurança, construção nacional (“nation building”), desenvolvimento – cada uma segue o seu caminho independente.

A este factor acresce um outro: o Conselho encontra-se absorvido pela gestão dos assuntos mais prementes da agenda internacional, revelando um notório déficit de atenção em relação a alguns países em situação de pré ou pós conflito.

Julgamos que existe um caso sólido para advogarmos a criação de um novo mecanismo institucional, de uma nova Comissão, com mandato para seguir no dia-a-dia casos de prevenção de conflitos e de criação de condições de paz e desenvolvimento. Ela poderia, na dependência conjunta do Conselho de Segurança e do Conselho Económico e Social, que preservariam as respectivas áreas de competência, identificar e assegurar as necessidades mais prementes. E também elaborar, para cada um dos países em situação de risco, estratégias integradas conjugando os objectivos de: segurança, reforço das instituições (designadamente nos sectores da administração e justiça), e desenvolvimento económico e social. Obviamente, esta Comissão teria de se articular estreitamente com as instituições de Bretton Woods e com as agências das Nações Unidas, para que se torne realmente mais eficaz a actuação da Organização em matéria de prevenção de conflitos.

Enquanto se preparam outras decisões de maior fôlego, poderíamos e deveríamos começar por aqui.

Senhor Presidente,

Não basta às Nações Unidas afirmarem a sua relevância. É também indispensável que a Organização seja vista como relevante pelos Estados Membros e que estes actuem em conformidade. A credibilidade desta organização, ou mesmo de algum dos seus órgãos, não deve ser posta em causa, sob pena de comprometer seriamente o seu funcionamento e eficácia.

O Iraque é certamente o caso que mais requer de todos nós, mas em particular dos membros do Conselho de Segurança, uma avaliação mais cuidadosa sobre a capacidade de acção desta Organização. É necessário um virar de página colectivo, visto que não há uma alternativa válida a uma politica que permita ao povo iraquiano definir livremente o seu sistema de governo e liderança política, bem como manter a integridade política e territorial do seu país. Ajudar a construir uma sociedade democrática sob os escombros de uma das mais violentas ditaduras do século passado é um desafio a que a comunidade internacional se não deve furtar. E é uma tarefa que exige muito realismo sobre as dificuldades a enfrentar.

Por isso mesmo, defendemos sempre uma progressiva inserção das Nações Unidas no processo de estabilização do Iraque, com uma correspondente transferência gradual de poder para representantes iraquianos. E encorajamos o Conselho de Segurança a chegar a um entendimento rápido sobre esta matéria. Pelo nosso lado, estamos já a dar passos concretos, incluindo no plano de segurança, de apoio a todos aqueles que se encontram já apostados em ajudar no terreno o povo iraquiano a viver em liberdade.

Senhor Presidente,

Um maior empenhamento da comunidade internacional é também indispensável para que possa ser retomado o processo de paz no Médio Oriente. O “road map” não pode ser arquivado, cabendo-nos exigir a todas as partes interessadas uma atitude “pró-activa”. Também aqui não devemos ficar indiferentes ao legítimo anseio de liberdade e autodeterminação do povo palestiniano. Israel e a Palestina terão de saber coexistir em paz e em segurança, dentro de fronteiras reconhecidas e sem divisões artificiais. Mas também aqui o terrorismo, que apenas beneficia os inimigos da paz, deverá ser condenado sem ambiguidade.

Senhor Presidente,

Grandes desafios geram grandes oportunidades. Cabe-nos a nós, os Membros das Nações Unidas, criar as condições que possibilitem a esta Organização viver de acordo com o seu potencial e os ideias que presidiram à sua criação. Portugal está pronto a dar o seu contributo.